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Temer: nunca houve um presidente tão vulgar

Temer: nunca houve um presidente tão vulgar

21

maio

Michel Temer, agora investigado pelo STF por crimes cometidos no mandato,  jurou raivoso que não vai renuncias mas deve estar vivendo suas últimas horas no cargo.  Seu navio furado vem sendo abandonado às pressas  pela tripulação oportunista que nele embarcou com o golpe. TemerVai sair pela portas dos fundos, vai sair como um gatuno vulgar que, por muitos anos,  disfarçou-se de político habilidoso.  Muito se dirá sobre os 12 meses tenebrosos em que ele governou o Brasil impondo o programa derrotado nas urnas de 2014, após conspirar para a derrubada da presidente com a qual se elegeu vice. Muito se dirá também sobre sua queda ruidosa, após cair numa arapuca armada para pegar passarinho incauto. O arrogante é sempre incauto, julga-se inalcançável em sua esperteza.  Mas, antes que ele vire cachorro morto, quando até os bajuladores que teve durante seu reinado tenebroso irão espancá-lo (coisa que, aliás, já estão fazendo, vide o Jornal Nacional desta noite), quero destacar uma característica que nenhum outro governante brasileiro exibiu de forma tão acintosa: a vulgaridade no poder.        A vulgaridade na política se manifesta quando alguém exerce o poder sem cultura e sem preparo intelectual para o cargo e,  também, em sua forma mais grave, quando um governante o exerce sem condições morais para tanto, sem enfrentar dilemas e limites éticos, o que em algum momento acaba levando à queda no abismo, como acontece agora com Temer. Como já aconteceu, ao longo da História,  com imperadores e tiranos que se distinguiram pela vulgaridade.      Não falemos da vulgaridade intelectual de Temer, de sua incultura, de sua abordagem superficial e rasa das questões mais relevantes ou graves. Sem pisar na norma culta da Língua, como fazia Lula despertando as iras da imprensa e de adversários lustrosos, como os tucanos,  Temer passou um ano dizendo platitudes e besteiras que não incomodaram os que o ajudaram a chegar lá, além de mentir descaradamente sobre feitos de seu governo, contrariando os números e a realidade.     Fico em sua vulgaridade moral, que só não viu quem não quis, muito antes destas revelações sobre seu encontro com Joesley Batista. Temer, presidente da República, ouviu o empresário confessar um rosário de crimes e portou-se como um confidente. Mais que isso, como um aliado, um correligionário. Isso é a vulgaridade moral em altíssimo grau.     Há pouco alguém ligado a Temer me dizia que ele caiu numa cilada da PF e do Ministério Público. Reclamou do ministro da Justiça, por não ter sabido das articulações entre a JBS e a Lava Jato.  Sua conversa com Joesley é a prova maior de sua vulgaridade moral. Temer conversa sobre qualquer coisa indecente como se discutisse uma medida burocrática, sem tremer a voz. Acostumado a conduzir tratativas nada republicanas, em que já foram discutidas propinas, inclusive uma vultosa, de R$ 40 milhões,  em que ele já pediu uma contribuição eleitoral de R$ 10 milhões, como fez no encontro com Marcelo Odebrecht, acostumado a todo tipo de traficâncias na relação com os poderosos, Temer portou-se como um peixe n”água na conversa com Joesley. Ali estava mais um magnata a quem poderia servir em troca de vantagens e de apoio político. De nada desconfiou porque a conversa era similar a outras tantas.        - Isso tem que ser mantido, viu?     Isso o quê mesmo? O mensalão pago pela JBS a Eduardo Cunha para que não fizesse delação premiada. Poisa se fizesse, mandaria Temer para o espaço.  Por vias tortuosas, foi Cunha que o derrubou por ação alheia.     O que significa o pagamento de uma propina de longo prazo, em parcelas de R$ 500 mil a Rodrigo Loures, com quem Temer mandou Joesley tratar dos problemas enfrentados por sua empresa? Batista perguntou se poderia tratar “de tudo” com Loures. “De tudo”, confirmou Temer. “Tudo”, está claro, inclui a propina que foi paga a Loures e foi documentada pela PF. Nunca um presidente desceu tão baixo na vulgaridade.      A vulgaridade moral perpassou toda a sua passagem pela presidência. Nos últimos dias, Temer distribuiu bilhões de reais para a plutocracia empresarial em troca de votos para as reformas neoliberais, que vinha utilizando como moeda na busca de apoio do mercado. Nos últimos dias houve um perdão de R$ 25 bilhoes para o Banco Itaú, de R$ 10 bilhões para os ruralistas que não pagam o Funrural, de R$ 8 bilhões do Refis para empresas urbanas, de bilhões não calculados em renovação de contratos de concessão...E no entanto, os que só agora se dizem decepcionados com ele trataram tudo isso com naturalidade. A começar pela imprensa. Havia até quem visse nisso "habilidade" para aprovar as reformas.     Enquanto destruía políticas sociais e retirava direitos e conquistas ínfimas dos mais pobres, inclusive aposentadorias por invalidez, Temer ia além de todos os limites e das próprias aparências para proteger seus aliados encalacrados. Manter no governo  ministros investigados como Padilha, Moreira e outros tantos, em qualquer país, seria visto como uma vulgaridade intolerável. Trump, que na campanha já se prenunciava um portador da vulgaridade na presidência americana, sucedendo justamente a Obama, que a exerceu com elegância e liturgia. por muito menos já está sendo confrontado, podendo vir a ser o primeiro presidente americano a sofrer impeachment.     Aqui, entretanto, não houve uma insurgência geral, durante 12 meses,  contra os arreganhos, os abusos e a vulgaridade de Temer. Muito pelo contrário, ele contou com grande indulgência da mídia,  de organizações da sociedade civil e do próprio Judiciário. Cooptou quase todos os partidos, o que é uma prova lamentável da decrepitude deles.     Ainda esta semana, Temer ficou raivoso quando se soube que a babá de seu filho era paga pelo erário.Ocupa função de confiança no Planalto. cargo público de confiança. Sentindo-se firme no cargo, com um prato de melado à sua frente,   parecia acreditar que o Brasil havia renunciado a qualquer exigência moral em relação a ele ou a qualquer ocupante do Planalto. Sentia-se à vontade para transgredir e enganar.     Eis que, com a gravação e divulgação de sua conversa com Joesley,  os brasileiros resolvem dizer “basta” e a própria elite política e empresarial constata que não dá mais para segurar e decide livrar-se dele.  É uma questão de horas ou dias, e de forma: impeachment, TSE ou STF, se ele não renunciar. Afinal, o homem não passa de um rato vulgar.